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Tópico: Mudanças de paradigma

  1. #1

    Mudanças de paradigma

    Me enviaram este texto, que achei que trata diversas questoes interessantes relacionadas ao processo de desenvolvimento cientifico, a luz de observacoes acerca de programacao e arquitetura de computadores.

    Fonte: http://www.paradigma.com.br/leiamais/leiamais0008/view

    Mudanças de paradigma

    A pesquisa científica tem por objetivo promover mudanças na maneira
    pela qual entendemos o mundo. Na maioria da vezes, estas mudanças são
    incrementais, envolvendo apenas uma pequena inovação, deixando
    virtualmente intocada a grande estrutura do conhecimento da área em
    questão. Entretanto, na história do progresso científico, às vezes
    foram realizadas mudanças que não foram apenas incrementais, mas
    representaram uma ruptura com o passado, abrindo um novo capítulo na
    nossa compreensão da natureza, com sua assimilação exigindo,
    inclusive, a reconstrução das teorias anteriores e a re-interpretação
    de observações experimentais antes realizadas. Exemplos de proponentes
    destas rupturas incluem Copérnico, que explicou os movimentos dos
    planetas supondo que estes moviam em torno do sol ao invés da Terra;
    Darwin, que explicou a origem das espécies; e Einstein, que nos
    apresentou a relatividade de observação de fenômenos físicos.

    No seu livro A Estrutura de Revoluções Científicas, de 1962, Thomas
    Kuhn se referia às rupturas nesta evolução científica como "mudanças
    de paradigma", um termo que hoje é usado mais genericamente para
    descrever uma modificação profunda em nossos pontos de referência. O
    termo vem sendo aplicado também na área das tecnologias de informação
    e comunicação (as TICs). Aqui vamos discutir sua aplicação à
    construção de computadores e de software.

    Em 1981 a forma de construir computadores foi modificada para sempre
    pela decisão tomada pela IBM de abrir para todos a arquitetura do seu
    novo microcomputador, o PC. Esta decisão foi inédita: antes disto, a
    construção de todos os computadores havia sido mantida como sigilo
    proprietário do fabricante, e havia um número elevado de modelos
    diferentes. Depois, a arquitetura do PC foi adotado por outros
    fabricantes, que passaram a fabricar os clones, concorrendo contra a
    própria IBM. Não somente esta arquitetura eliminou outras da categoria
    de microcomputadores, como passou a substituir as categorias
    anteriores de minicomputadores e "mainframes", durante os vinte anos
    subseqüentes. Em suma, a arquitetura PC se tornou um padrão para a
    indústria de computadores.

    Esta iniciativa da IBM foi uma mudança de paradigma, que afetou quase
    toda a indústria de computação, mas não teve os resultados que a IBM
    esperava, pois a adoção de hardware padronizado facultou a exploração
    mais ampla de software, e todos sabemos hoje que a beneficiária desta
    exploração não foi a IBM, mas a Microsoft, cujo contrato com a IBM a
    deixou livre para comercializar seu software para os fabricantes de
    clones de PCs. A IBM deixou também de dominar o mercado de hardware,
    tendo sido suplantado pela Dell, que se mostrou mais ágil em atender a
    um mercado onde o objetivo era montar um computador bom e barato,
    respeitando os padrões técnicos. Podemos qualificar a conseqüência
    principal desta mudança de paradigma como tornar hardware de
    computadores no que é chamado em inglês de "commodity": um insumo
    básico que pode ser usado como blocos de montar para diferentes
    objetivos. O que caracteriza o "commodity" é que existe em grande
    quantidade e que tem diversos fornecedores, que seguem fielmente os
    mesmos padrões. Quem já comprou um PC montado na loja da esquina sabe
    do que estou falando.

    Num artigo publicado recentemente, Tim O´Reilly (da editora O´Reilly)
    apresentou sua visão que estamos potencialmente vivendo uma segunda
    mudança de paradigma, esta vez afetando o software dos nossos
    computadores (v. tim.oreilly.com/opensource/paradigmshift _0504.html).
    Especificamente, O´Reilly interpreta a evolução dos movimentos de
    software livre e software aberto tendo chegado a um momento crítico,
    com resultados imprevisíveis. Na coluna de 6 de maio de 2001,
    apresentamos estas duas comunidades, onde o software livre era
    governado pela estrita disciplina da Licença Pública Geral de GNU
    (GPL), criada por Richard Stallman, que obrigava colocar no domínio
    público qualquer acréscimo ao software existente, enquanto o software
    aberto admitia a comercialização dos produtos mesmo gerados a partir
    de programas compartilhados. De qualquer maneira, o custo de software
    aberto tende a ser substancialmente inferior ao software proprietário,
    como os produtos da Microsoft, para citar o exemplo mais conhecido de
    uma empresa que combate estes dois movimentos.

    Este combate existe em vários níveis. Aqui no Brasil já vimos o uso de
    recursos do FUST ter sido adiado durante mais de 3 anos, em parte
    causado pela defesa pelo deputado federal Sérgio Miranda (PC do B, MG)
    do uso de software aberto, e não apenas produtos da Microsoft, nos
    computadores a serem instalados nas escolas (v. coluna de 20 de
    janeiro de 2003). A defesa de software aberto tem sido mais forte
    dentro do atual governo, onde um dos seus proponentes, Sr Sérgio
    Amadeu, ocupa cargo de direção do Instituto de Tecnologia de
    Informação (ITI), e está sendo promovido dentro da administração
    federal o uso do software aberto.

    Entretanto, embora tenha sido importante a preferência por software
    aberto ao nível do computador do usuário, por si só, isto não mais
    determina as características do software realmente usado na prestação
    do serviço aos usuários destes computadores. A razão é simples: hoje
    em dia a grande maioria de computadores é usado em rede, normalmente a
    Internet, e os serviços de rede são prestados em boa parte pelos
    servidores dos sítios que visitamos para atender nossas necessidades.
    O exemplo mais óbvio hoje é o Google (www.google.com), cujo serviço é
    prestado por um conjunto de 100.000 servidores, com o sistema
    operacional, Linux. Desta perspectiva, somos todos usuários de
    software aberto.

    O artigo de O´Reilly é longo, e somente será dado aqui um sumário do
    seu argumento. Na visão dele, o software aberto exprime três
    tendências de longo prazo: a conversão de software em "commodity"; a
    colaboração em rede; e software como serviço. Olhemos a cada uma a
    seguir.

    Software como commodity: hoje em dia software para uso na Internet
    deve seguir os padrões (os protocolos) definidos para a Internet,
    significando que podemos substituir o Internet Explorer da Microsoft
    pelo Mozilla, ou o Outlook Express pelo Eudora, sem afetar seriamente
    a funcionalidade. O grande esforço dos movimentos de software livre e
    software aberto tem sido de clonar o núcleo do software (Windows e
    Office) da Microsoft, e parece que está bem encaminhado este
    empreendimento. Em breve, poderemos tanto usar o software da
    Microsoft, como estes clones, sem prejuízos. Mas qual será a
    conseqüência desta mudança: quem vai lucrar com ela? (É claro que a
    Microsoft vai perder!) Na visão de O´Reilly, os beneficiários serão as
    empresas que usam software para criar serviços. Cita como exemplos a
    Google e a Amazon (www.amazon.com), onde serviços proprietários têm
    sido criados baseado em uso de software aberto. Estas empresas adaptam
    este software, mas, como não o repassa, não são limitados pelas
    limitações de compartilhamento obrigatório dele. Um outro beneficiário
    seria a empresa, que, da mesma forma que a Dell no caso de hardware,
    consiga incluir em sua edição do sistema operacional Linux uma
    combinação de programas adicionais, de tal modo que o comprador
    consiga configurar adequadamente o software às suas necessidades.
    Evidentemente, esta atividade nunca será tão lucrativa quanto tem sido
    para a Microsoft, mas faz parte do progresso tornar o processo de
    fabricação de software mais eficiente e os preços mais baixos.

    Colaboração em rede: o sucesso de muitos itens de software está
    intimamente relacionado à colaboração realizada dentro de uma
    comunidade de parceiros no seu desenvolvimento. O´Reilly lembra que
    nos primórdios o software era livremente trocado entre programadores,
    pois o caro nessa época era o hardware proprietário. O primeiro
    sistema operacional disponível em muitas arquiteturas diferentes de
    hardware era Unix, e na cultura da época a distribuição de software em
    "fonte" era normal e esperado. O antecessor da Internet foi a UUCPnet,
    uma enorme rede de sistemas Unix, interligados por linhas telefônicas,
    que suportava correio eletrônico e a USENET, um sistema distribuído de
    listas de discussão. O principal conteúdo de muitas destas listas era
    a distribuição irrestrito de software, e foi nessa época que foram
    inculcadas as virtudes de colaboração à distância. Somente depois do
    hardware virar um commodity observamos que uma parte da comunidade
    começou a proteger seus produtos.

    Em tempos mais recentes, o mesmo espírito de colaboração, que havia
    sido exibido gratuitamente na antiga comunidade Unix, tem contribuído
    para criar serviços melhores em outros contextos. Como exemplos,
    podemos apontar a computação em grade realizado voluntariamente pelos
    colaboradores de projetos como SETI@home (v. coluna de 19 de fevereiro
    de 2001), as avaliações de produtos realizadas pelos usuários de
    Amazon, e o próprio funcionamento de Google. Em todos casos, o serviço
    é aprimorado pela contribuição expressa, indireta ou involuntária dos
    usuários: os participantes de SETI@home cedem voluntariamente o uso do
    tempo disponível dos seus computadores; os usuários do Amazon podem
    avaliar os produtos, e a média ponderada destas avaliações é usada
    pela Amazon para gerar a classificação destes produtos mostrada para
    outros usuários; o algoritmo de classificação de "relevância" usado
    por Google para ordenar as páginas relevantes leva em consideração o
    número de referências ("links") feitas a estas a partir de outras
    páginas na sua base de dados. Neste último caso, esta contribuição é
    externa ao controle de Google, e poderia ser aproveitada por
    competidores de Google. O´Reilly sugere que a criação recente por
    Google de orkut e GMail são iniciativas destinadas a obter a
    contribuição de usuários, agora voluntários, em ambientes mais
    controlados.

    Software como serviço: neste contexto, não estamos interessados em ver
    sítios como SETI@home, Amazon e Google como produtos, mas como
    processos, que prestam serviços a seus usuários. Um recente artefato
    de software, chamada de "web services", permite que estes serviços
    sejam requisitados por software no computador do usuário remoto,
    permitindo que um enorme base de informação, como de Amazon ou Google,
    seja considerada apenas como um componente de um sistema ainda maior,
    montado e acionado a partir do computador do usuário final, quer seja
    este um computador portátil, um telefone móvel ou até um dispositivo
    como o iPod da Apple.

    O´Reilly considera que seja necessário hoje ver a Internet com um
    grande computador virtual, e, conseqüentemente, criar um sistema
    operacional para ele. Para fazer isto afirma que os exemplos
    históricos do software aberto e da própria Internet demonstram que é
    possível criar um novo sistema deste tipo, com uma arquitetura que
    permita a participação de qualquer um interessado em aumentar o valor
    do sistema. A contribuição do software aberto seria maximizar o
    compartilhamento livre de idéias expressas em software, mas adverte
    que seus proponentes precisam ser mais flexíveis do que
    tradicionalmente, admitindo outras formas de colaboração que não
    apenas o licenciamento de software compartilhado. Em seu lugar,
    prefere que consideremos a iniciativa de software aberto como uma área
    de estudo científico e econômico, com precedentes históricos, e
    fazendo parte de uma história social e econômica. Seria necessário
    entender corretamente o impacto dos três fatores que já destacamos: os
    padrões cuja adoção criam novos "commodities"; as conseqüências da
    arquitetura dos sistemas e de uso em rede; e as práticas de
    desenvolvimento adotadas quando software é considerado como serviço.
    Seria importante não limitar o estudo apenas a projetos de software
    aberto, e estudar também a ocorrência destes fatores em software
    proprietário. Finalmente seria necessário identificar outras áreas de
    atividade em colaboração, que exibem os mesmos princípios que
    historicamente levaram ao compartilhamento de software.

    Como já foi visto, as mudanças de paradigma ocorrem sem dar aviso
    prévio e suas conseqüências são extensas para a área de saber ou
    atividade relevante. Na área científica, uma mudança vai ganhando
    adesões ao longo do tempo, na medida do convencimento dos pares da
    correção do grupo renovador. A área tecnológica é um pouco diferente,
    porque é moldada pela criatividade humana. Numa mudança de paradigma
    nesta área, cabe a cada um se posicionar de forma a aproveitar melhor
    as oportunidades que virão no bojo da reformulação da área. Mas a
    posição de cada um não precisa ser passiva. Como diz O´Reilly, é
    difícil prever onde esta mudança vai terminar, mas ele complementa
    citando outra pessoa da área tecnológica: "A melhor maneira de prever
    o futuro é inventá-lo". O futuro será determinado por nós todos.

    Michael Stanton, professor do Instituto de Computação da Universidade
    Federal Fluminense e Diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e
    Pesquisa (RNP)

  2. #2
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    Re: Mudanças de paradigma

    Na TI essa mudança de paradigma talvez seja a mais "mutante". Quantas mudanças já não tivemos, por exemplo, de 1990 até hoje?

    PS:
    Darwin, que explicou a origem das espécies;
    Darwin inventou uma origem das espécies, sem fundamento concreto, porém conseguiu vários adeptos. Mas isso é assunto para outro forum ;)
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